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IDENTIDADE
Stuart Hall menciona o pertencimento como um dos fatores primordiais na construção da identidade (de forma performática). De fato, hoje se define um indivíduo quase exclusivamente pelos seus grupos: nacionalidade, profissão, tribos, etc.
Dizemos, por exemplo, que um aluno é nerd, ou que um outro é punk. Certas características comportamentais (timidez, esforço nos estudos, anti-sociabilidade; agressividade, inconformismo) ou físicas (uso de óculos; roupas rasgadas) nos permitem enquadrar cada um dos indivíduos num grupo de semelhantes. Esse enquadramento, ou classificação nos ajuda a formar uma imagem mais definida de cada pessoa. O Homem tem necessidade de classificar tudo o que conhece, para poder comparar e compreender o mundo. Por que seria diferente com outros homens? A atribuição de rótulos é, portanto, inevitável, por mais fictícios ou superficiais que eles sejam.
Isso não quer dizer que uma pessoa fará sempre parte dos mesmos grupos, ou “terá sempre a mesma identidade”. Por exemplo, se o aluno considerado nerd crescer e se tornar popular, haverá comentários de que ele “não é mais a mesma pessoa”, ou mudou de identidade. Vendo por esse aspecto, a identidade não é mais do que a imagem de uma pessoa aos olhos dos outros. A personalidade e as características mais íntimas ainda constituem sua identidade, mas a imagem se sobrepõe a elas. E, se a imagem ganhou o papel principal na sociedade pós-moderna, é natural que se tenham criado formas de moldá-la. Escolha a sua imagem e ela lhe dirá quem você é.
Por outro lado, há ainda características ou rótulos que não são escolhidos ou moldáveis. Por exemplo, a nacionalidade. O local de nascimento curiosamente influencia a todos nós, não apenas nos nossos valores e costumes, mas também na nossa imagem como um grupo. Nós, brasileiros, enquanto grupo, somos vistos como amantes do samba e do futebol, e detestamos os argentinos (por mais que, no âmbito pessoal, possamos ter um amigo argentino). Australianos rivalizam com os neozelandeses, e assim por diante. É uma interessante alucinação de massa. Sabemos, por exemplo, que há milhões de brasileiros diferentes, mas nada mudará o senso comum de que “os americanos são todos iguais”. Até as mentes mais esclarecidas cultivam preconceitos de grupo.
Há ainda um fator mais forte que a nacionalidade, que é a língua. Falantes da mesma língua não apenas se compreendem com mais perfeição, mas compartilham de uma mesma visão de mundo, pois delimitam o mesmo campo simbólico através das palavras. Assim, a identificação nacional ganha uma força que pode se sobrepor a qualquer outra, e fica evidente quando em antigonia com outra nação, de língua diferente.
Um dos fenômenos mais curiosos, porém, acontece aqui mesmo, no Brasil. Pois um brasileiro que se preze deve ter um time do coração! Somos todos, voluntariamente e hipnoticamente, são-paulinos, corintianos ou palmeirenses. Flamenguistas ou vascaínos, gremistas ou colorados. Não há amigo, por aqui, que não lhe perguntará, ao menos uma vez, “para que time você torce”, pois esse é um dado de vital importância na construção da sua imagem na cabeça desse amigo.
O comportamento, a nacionalidade e o time de preferência são apenas alguns dos infindáveis itens que constroem uma identidade, no mundo pós-moderno. Vale lembrar que uma pessoa jamais pertencerá a um único grupo, ou a uma única categoria, podendo inclusive misturar características aparentemente contrastantes.
Se a nacionalidade influencia a perspectiva cultural do indivíduo, o Estado ou a Cidade determinam seus valores. Espera-se que quem mora ou é nascido em São Paulo tenha grande afeição pelo trabalho, e que os cariocas apreciem uma certa liberdade.
Porém, um homem paulistano não é igual à mulher paulistana. Pressupõe-se uma certa semelhança, mas os dois itens (localidade e sexo) se entrelaçam para formar uma terceira imagem. O mesmo acontece com praticamente todos os “fragmentos de identidade”, que se cruzam e se chocam incessantemente, em cada ocasião, formando não uma, mas várias imagens de um indivíduo distorcido. Em nenhum momento tem-se a visão completa da identidade, mas cria-se uma idéia unificada e abstrata da pessoa.
Na Propaganda
A sociedade pós-moderna vive uma ditadura da imagem. E a publicidade sabe disso. Sabendo que o consumidor deseja uma imagem perfeita, a Propaganda vai além, e lhe oferece várias. Faz isso explorando um mundo de personalidades-exemplo, as quais vão servir para cada grupo rotulado, ou para o máximo de grupos possíveis. Ao mesmo tempo, num jogo de manipulação, ela ajuda a pregar um falso ideal de “seja você mesmo”, criando um novo grupo que homogeneíza todos aqueles que até então não se encaixavam: os “diferentes”.
A máxima de “seja você mesmo, mas seja igual a mim” pode ser percebida facilmente em três propagandas atuais. A do carro Ford Focus [1], das sandálias Havaianas e da
Se algumas propagandas apelam para o comportamento, outras lidam com o físico. Tinturas para cabelos, cirurgias estéticas, bermudas e cremes de emagrecimento, todos vendendo “imagens pré-fabricadas”. A possibilidade de moldar a imagem física é uma tentação pós-moderna."Você pode ser o que você quiser” é, inclusive, slogan da marca de cosméticos o Boticário. É uma frase que traduz todo o fenômeno estético da atualidade.
Essa noção, de que se pode “escolher” a imagem, o comportamento, os grupos, sugere também uma escolha da identidade. Mas até que ponto essa “escolha”, altamente direcionada pelos veículos de comunicação, não é na verdade a perda da identidade? Perder-se...Perdemo-nos diariamente, nesse ambiente pós-moderno. E o “encontrar-se” tem sido tema recorrente na ficção e na arte, talvez por causa disso. A personagem volta ao lugar de infância para tentar se encontrar, e se descepciona.
Álvaro de Campos retorna a Lisboa, e não se encontra. Não se revê idêntico, mas apenas em fragmentos fatídicos, sem saber se ainda existe um único Ele, que se conheça.
A Crise
Se a sociedade pós-moderna venera o individualismo, ao mesmo tempo que se alimenta da padronização, o Homem pós-moderno é um indivíduo em crise.
Primeiramente, todos os ideais de estabilidade se dissolveram, e não há mais um único papel a ser representado, não há mais regras fixas a serem seguidas. O homem, hoje, enquanto procura uma imagem na qual se espelhar, aprende que precisa ser flexível. Se as mulheres conquistaram posição social e poder econômico, não há mais necessidade de um homem provedor. Ele precisa, portanto, no âmbito familiar, ser companheiro. Por outro lado, as revistas masculinas oferecem ideais de homens fortes, saudáveis e seguros. Outras, ainda, sugerem um homem viril e criativo. Ele ainda precisa ser um pai presente e filho provedor (porque ele ainda deve ser o pilar da família, não mais da mulher e filhos, mas dos pais e irmãos). Todas essas características são repetidas exaustivamente a ele, através dos filmes, propagandas e revistas. As conversas reais com os amigos dizem, ainda, outras coisas que contrastam com essas.
O homem pós-moderno é, essencialmente, inseguro. Pela ditadura da imagem, ele não deve demonstrar essa insegurança, pois o ideal é que seja sensível, porém forte. Mas toda essa fragmentação e multiplicação de papéis fizeram ruir a sua imagem impenetrável, e agora ele povoa os consultórios de psicólogos com o complexo do Super-Homem. Como dita a Ética do Bem-Estar, ele não pode falhar. Não pode ser frágil, nem infeliz, e precisa ser bem-sucedido na carreira. Ao menos, é como os outros devem vê-lo.
A mulher pós-moderna sofre a mesma crise, de forma um pouco diferente. Como maior consumidora de revistas de comportamento, ela acaba ficando mais vulnerável às pressões midiáticas. Mais uma vez, ela precisa desempenhar múltiplos papéis. É preciso ser mãe exemplar, filha e amiga. É importante que seja independente e, acima de tudo, impecavelmente bonita, não importa os meios. Mas, enquanto as revistas sugerem mulheres fortes, seguras e práticas, os homens ainda desejam que elas sejam meigas, sensíveis e cuidadosas. Há uma enorme lacuna, aí, entre a ficção e a realidade, e o resultado são cada vez mais mulheres sozinhas. Assim como os homens, elas não se permitem falhar. Não na forma literal, mas na vida. Devem ser sempre felizes e bem sucedidas. A realidade, é claro, raramente condiz com o ideal.
Dizemos, por exemplo, que um aluno é nerd, ou que um outro é punk. Certas características comportamentais (timidez, esforço nos estudos, anti-sociabilidade; agressividade, inconformismo) ou físicas (uso de óculos; roupas rasgadas) nos permitem enquadrar cada um dos indivíduos num grupo de semelhantes. Esse enquadramento, ou classificação nos ajuda a formar uma imagem mais definida de cada pessoa. O Homem tem necessidade de classificar tudo o que conhece, para poder comparar e compreender o mundo. Por que seria diferente com outros homens? A atribuição de rótulos é, portanto, inevitável, por mais fictícios ou superficiais que eles sejam.
Isso não quer dizer que uma pessoa fará sempre parte dos mesmos grupos, ou “terá sempre a mesma identidade”. Por exemplo, se o aluno considerado nerd crescer e se tornar popular, haverá comentários de que ele “não é mais a mesma pessoa”, ou mudou de identidade. Vendo por esse aspecto, a identidade não é mais do que a imagem de uma pessoa aos olhos dos outros. A personalidade e as características mais íntimas ainda constituem sua identidade, mas a imagem se sobrepõe a elas. E, se a imagem ganhou o papel principal na sociedade pós-moderna, é natural que se tenham criado formas de moldá-la. Escolha a sua imagem e ela lhe dirá quem você é.
Por outro lado, há ainda características ou rótulos que não são escolhidos ou moldáveis. Por exemplo, a nacionalidade. O local de nascimento curiosamente influencia a todos nós, não apenas nos nossos valores e costumes, mas também na nossa imagem como um grupo. Nós, brasileiros, enquanto grupo, somos vistos como amantes do samba e do futebol, e detestamos os argentinos (por mais que, no âmbito pessoal, possamos ter um amigo argentino). Australianos rivalizam com os neozelandeses, e assim por diante. É uma interessante alucinação de massa. Sabemos, por exemplo, que há milhões de brasileiros diferentes, mas nada mudará o senso comum de que “os americanos são todos iguais”. Até as mentes mais esclarecidas cultivam preconceitos de grupo.
Há ainda um fator mais forte que a nacionalidade, que é a língua. Falantes da mesma língua não apenas se compreendem com mais perfeição, mas compartilham de uma mesma visão de mundo, pois delimitam o mesmo campo simbólico através das palavras. Assim, a identificação nacional ganha uma força que pode se sobrepor a qualquer outra, e fica evidente quando em antigonia com outra nação, de língua diferente.
Um dos fenômenos mais curiosos, porém, acontece aqui mesmo, no Brasil. Pois um brasileiro que se preze deve ter um time do coração! Somos todos, voluntariamente e hipnoticamente, são-paulinos, corintianos ou palmeirenses. Flamenguistas ou vascaínos, gremistas ou colorados. Não há amigo, por aqui, que não lhe perguntará, ao menos uma vez, “para que time você torce”, pois esse é um dado de vital importância na construção da sua imagem na cabeça desse amigo.
O comportamento, a nacionalidade e o time de preferência são apenas alguns dos infindáveis itens que constroem uma identidade, no mundo pós-moderno. Vale lembrar que uma pessoa jamais pertencerá a um único grupo, ou a uma única categoria, podendo inclusive misturar características aparentemente contrastantes.
Se a nacionalidade influencia a perspectiva cultural do indivíduo, o Estado ou a Cidade determinam seus valores. Espera-se que quem mora ou é nascido em São Paulo tenha grande afeição pelo trabalho, e que os cariocas apreciem uma certa liberdade.
Porém, um homem paulistano não é igual à mulher paulistana. Pressupõe-se uma certa semelhança, mas os dois itens (localidade e sexo) se entrelaçam para formar uma terceira imagem. O mesmo acontece com praticamente todos os “fragmentos de identidade”, que se cruzam e se chocam incessantemente, em cada ocasião, formando não uma, mas várias imagens de um indivíduo distorcido. Em nenhum momento tem-se a visão completa da identidade, mas cria-se uma idéia unificada e abstrata da pessoa.
Na Propaganda
A sociedade pós-moderna vive uma ditadura da imagem. E a publicidade sabe disso. Sabendo que o consumidor deseja uma imagem perfeita, a Propaganda vai além, e lhe oferece várias. Faz isso explorando um mundo de personalidades-exemplo, as quais vão servir para cada grupo rotulado, ou para o máximo de grupos possíveis. Ao mesmo tempo, num jogo de manipulação, ela ajuda a pregar um falso ideal de “seja você mesmo”, criando um novo grupo que homogeneíza todos aqueles que até então não se encaixavam: os “diferentes”.
A máxima de “seja você mesmo, mas seja igual a mim” pode ser percebida facilmente em três propagandas atuais. A do carro Ford Focus [1], das sandálias Havaianas e da
Se algumas propagandas apelam para o comportamento, outras lidam com o físico. Tinturas para cabelos, cirurgias estéticas, bermudas e cremes de emagrecimento, todos vendendo “imagens pré-fabricadas”. A possibilidade de moldar a imagem física é uma tentação pós-moderna."Você pode ser o que você quiser” é, inclusive, slogan da marca de cosméticos o Boticário. É uma frase que traduz todo o fenômeno estético da atualidade.
Essa noção, de que se pode “escolher” a imagem, o comportamento, os grupos, sugere também uma escolha da identidade. Mas até que ponto essa “escolha”, altamente direcionada pelos veículos de comunicação, não é na verdade a perda da identidade? Perder-se...Perdemo-nos diariamente, nesse ambiente pós-moderno. E o “encontrar-se” tem sido tema recorrente na ficção e na arte, talvez por causa disso. A personagem volta ao lugar de infância para tentar se encontrar, e se descepciona.
Álvaro de Campos retorna a Lisboa, e não se encontra. Não se revê idêntico, mas apenas em fragmentos fatídicos, sem saber se ainda existe um único Ele, que se conheça.
A Crise
Se a sociedade pós-moderna venera o individualismo, ao mesmo tempo que se alimenta da padronização, o Homem pós-moderno é um indivíduo em crise.
Primeiramente, todos os ideais de estabilidade se dissolveram, e não há mais um único papel a ser representado, não há mais regras fixas a serem seguidas. O homem, hoje, enquanto procura uma imagem na qual se espelhar, aprende que precisa ser flexível. Se as mulheres conquistaram posição social e poder econômico, não há mais necessidade de um homem provedor. Ele precisa, portanto, no âmbito familiar, ser companheiro. Por outro lado, as revistas masculinas oferecem ideais de homens fortes, saudáveis e seguros. Outras, ainda, sugerem um homem viril e criativo. Ele ainda precisa ser um pai presente e filho provedor (porque ele ainda deve ser o pilar da família, não mais da mulher e filhos, mas dos pais e irmãos). Todas essas características são repetidas exaustivamente a ele, através dos filmes, propagandas e revistas. As conversas reais com os amigos dizem, ainda, outras coisas que contrastam com essas.
O homem pós-moderno é, essencialmente, inseguro. Pela ditadura da imagem, ele não deve demonstrar essa insegurança, pois o ideal é que seja sensível, porém forte. Mas toda essa fragmentação e multiplicação de papéis fizeram ruir a sua imagem impenetrável, e agora ele povoa os consultórios de psicólogos com o complexo do Super-Homem. Como dita a Ética do Bem-Estar, ele não pode falhar. Não pode ser frágil, nem infeliz, e precisa ser bem-sucedido na carreira. Ao menos, é como os outros devem vê-lo.
A mulher pós-moderna sofre a mesma crise, de forma um pouco diferente. Como maior consumidora de revistas de comportamento, ela acaba ficando mais vulnerável às pressões midiáticas. Mais uma vez, ela precisa desempenhar múltiplos papéis. É preciso ser mãe exemplar, filha e amiga. É importante que seja independente e, acima de tudo, impecavelmente bonita, não importa os meios. Mas, enquanto as revistas sugerem mulheres fortes, seguras e práticas, os homens ainda desejam que elas sejam meigas, sensíveis e cuidadosas. Há uma enorme lacuna, aí, entre a ficção e a realidade, e o resultado são cada vez mais mulheres sozinhas. Assim como os homens, elas não se permitem falhar. Não na forma literal, mas na vida. Devem ser sempre felizes e bem sucedidas. A realidade, é claro, raramente condiz com o ideal.
